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'Veja bem'

19 Setembro 2018 19:21:00

O sofrimento segundo Nietzsche


Vivemos tempos em que a regra é evitar o sofrimento. No entanto, parece que quanto mais o evitamos, mais ele nos acomete. Talvez um caminho mais sábio não seja necessariamente evitá-lo, mas compreender sua inevitabilidade e buscar aprender com ele. Ao longo da história do pensamento, miríades de poetas, dramaturgos, filósofos, profetas, músicos e romancistas encararam o sofrimento de frente e buscaram compreender essa poderosa força. No entanto, nenhum deles se debruçou sobre o tema de forma tão profunda e apaixonada quanto Friedrich Nietzsche.

Todos nós enfrentamos fases ruins na vida, repletas de empecilhos que parecem intransponíveis e reveses que nos devastam profundamente. A maioria dos filósofos tentou reduzir nosso sofrimento, oferecendo conselhos sobre como amenizar a dor. Mas Nietzsche tratou do problema de outra forma. Ele acreditava que todas as formas de derrotas e fracassos eram bem vindas no caminho do autoconhecimento e da felicidade. As dores por que passamos seriam como a montanha escalada pelo alpinista: repleta de desafios e dificuldades, mas a persistência pode proporcionar a maravilhosa sensação de ter alcançado o topo. Ele escreveu: "a todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, violência, maus tratos, indignidades, um profundo desprezo por si mesmo, a torturante falta de autoconfiança e a desgraça da derrota".

Nietzsche não falava apenas como estudioso do tema, mas como quem o vivia cotidianamente. Era um homem que padecia de diversos tipos de sofrimento. Além da permanente luta contra doenças, vertigens, dores de cabeça e enjoos (que acabariam por leva-lo à demência aos 45 anos), ainda viveu o trauma de ter perdido o pai ainda criança. Sua vida amorosa foi um desastre, tendo sido recusado por todas as mulheres de quem tentou se aproximar. Viveu uma vida errante entre a Alemanha, a Suíça e a Áustria, sempre em busca de algum clima que amenizasse um pouco suas péssimas condições de saúde. Inteligentíssimo, recebeu o diploma de professor universitário aos 24 anos, mas suas divergências com os colegas e com as escolas de pensamento de sua época foram transformando-o em persona non grata no mundo acadêmico. Mergulhado em sua filosofia absolutamente peculiar e em suas obras repletas de um lirismo radical, ele lutou contra editores mesquinhos e não chegou a ver seus livros sendo lidos por mais do que um pequeno círculo de leitores. Sem amigos, cultivou a solidão afirmando: "seu pouco amor por você mesmo transforma seu isolamento em cativeiro".

Embora tenha levado uma vida difícil, Nietzsche não viveu se lamentando o tempo todo. Muitas vezes ele falava de satisfação. Mas, por satisfação, ele queria dizer algo mais abrangente do que aquela sensação de bem estar fugaz que os prazeres momentâneos nos trazem. Chegou a escrever sarcasticamente sobre as pessoas viciadas no que ele chamava de "religião do prazer", a quem ele considerava "pequenas, mesquinhas, feras amedrontadas escondendo-se na floresta da mentira".

Nem tudo aquilo que nos faz sofrer é necessariamente ruim, assim como nem tudo o que nos dá prazer nos faz bem. O sofrimento pode ser aquela raiz feia que nutre a árvore mais bonita e mais forte. E o prazer fútil pode ser aquele sonho delicioso que logo se transforma no pior dos pesadelos.

Há uma frase de Nietzsche que talvez você conheça, mas não sabe que é dele: "aquilo que não me mata, me fortalece".

(Esta coluna é dedicada a todos aqueles e aquelas que estão enfrentando momentos de aflição, derrota, humilhação e desespero. Mantenham-se firmes. A luz que brilha depois da tempestade é a mais bonita e a mais intensa das estrelas.)

Dionísio Cerqueira (SC) - Barracão (PR)
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